Quando nasceram, os gémeos receberam nomes escolhidos com esmero. O mais velho foi chamado de Felix, “afortunado”, aquele que traria prosperidade à família. O mais novo, num gesto de equilíbrio, recebeu o nome de Mortis, pois o seu nascimento quase custou a vida da mãe.
Desde pequenos, Felix e Mortis eram opostos em tudo. Felix era radiante, cheio de sorte e encanto; Mortis, introspetivo, perseguido por um infortúnio silencioso. Se Felix caía, sempre havia uma mão para ajudá-lo. Se Mortis tropeçava, a queda era longa e dolorosa.
As pessoas sussurravam pelas ruas: “Nomen est omen”. O destino de cada um estava traçado desde o berço, selado pelas palavras que os nomeavam.
Cresceram assim, cada um cumprindo o seu papel no teatro invisível da existência. Felix tornou-se comerciante bem-sucedido, atraindo riqueza e admiração. Mortis, por sua vez, tornou-se um errante, um homem de sombras, carregando o peso de um nome que parecia predestinar-lhe a desgraça.
Uma noite, ao se encontrarem após anos distantes, Mortis fitou o irmão e perguntou:
– Felix, acreditas que os nossos nomes nos definem?
– O nosso nome é um chamado – respondeu Felix, – Mas não tem que ser uma sentença.
Naquela noite, Mortis tomou uma decisão. Dirigiu-se ao santuário da vila e ali, sob o olhar silencioso das estrelas, queimou um pedaço de pergaminho onde escrevera o seu próprio nome.
Ao amanhecer, anunciou:
— Chamem-me Vita. A vida me pertence tanto quanto a morte.
Daquele dia em diante, os ventos começaram a soprar de outra forma para Mortis, ou melhor, Vita. Ele deixou de esperar tragédias e começou a construir a sua própria sorte. Não era mais uma sombra de Felix, mas sim um homem que reescrevera o seu destino.
O provérbio antigo ainda sussurrava pelas ruas. Mas agora, contavam a história de um homem que provou que, às vezes, o destino pode ser reescrito.
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