“Através de experiências científicas, demonstrou-se que pode existir uma força vital que percorre o universo.”

Lynne McTaggart

Há livros que nos marcam porque nos fazem olhar a vida de outra forma. O Campo, de Lynne McTaggart, é um desses livros. Não é apenas uma obra de divulgação científica, mas uma ponte entre ciência, filosofia e espiritualidade. McTaggart apresenta-nos o chamado campo do ponto zero, uma matriz energética invisível que interliga todos os seres, todas as partículas, todos os pensamentos.

O que para muitas tradições espirituais sempre foi evidente, a unidade da vida, a teia invisível que sustenta o mundo, começa agora a ser confirmado pela ciência. E é isso que torna esta obra tão fascinante. A autora dá palavras e provas a algo que já intuíamos no coração.

Durante séculos, acreditámos que o universo era uma máquina composta por peças isoladas. Mas, a partir do século XX, a física quântica mostrou-nos outra realidade. Mesmo no chamado “vazio” existe uma densidade energética imensa, uma espécie de oceano vibrante que nunca cessa. É esse mar de flutuações quânticas, conhecido como campo do ponto zero, que McTaggart descreve.

Experiências realizadas em laboratórios confirmam que este campo funciona como um banco de dados cósmico. Informação, memória e até consciência não estão confinadas ao cérebro ou ao corpo, mas circulam por este tecido energético que nos atravessa e nos conecta.

Hal Puthoff, físico americano, demonstrou que partículas subatómicas interagem com esse mar invisível de energia, como se não pudessem existir fora dele. O Institute of HeartMath, na Califórnia, descobriu que o coração humano emite um campo eletromagnético capaz de influenciar não apenas o nosso corpo, mas também as pessoas à nossa volta, sobretudo quando cultivamos emoções como gratidão ou compaixão. Por outro lado, experiências de intenção coletiva mostraram que grupos de pessoas, ao enviarem pensamentos de cura ou crescimento, conseguem alterar resultados mensuráveis em sementes, células ou pacientes.

Tudo isto sugere que a consciência não é um fenómeno fechado, mas um campo partilhado, que atua para além da matéria.

McTaggart não está sozinha nesta visão. David Bohm, físico quântico, falava já da “ordem implicada”, uma dimensão profunda e invisível onde tudo está interligado. Fritjof Capra, em O Tao da Física, mostrou como a ciência moderna se aproxima das tradições orientais, revelando a dança interligada da realidade.

Rupert Sheldrake, biólogo britânico, propôs a existência dos campos mórficos, responsáveis por padrões de comportamento que se repetem e se reforçam em espécies e sistemas. Jung, por sua vez, falava do inconsciente coletivo, uma matriz simbólica que nos liga a todos.

E até Bert Hellinger, ao desenvolver as Constelações Familiares, identificou um campo de conhecimento partilhado, onde as memórias escondidas dos sistemas familiares permanecem vivas e atuantes. Hoje, muitos consteladores reconhecem no Campo descrito pela física quântica uma explicação para esse “saber que se revela” em cada dinâmica.

Perceber a existência do Campo transforma a forma como nos vemos e como nos relacionamos. Se estamos todos ligados por uma rede invisível, então os nossos pensamentos, emoções e intenções deixam de ser apenas “assuntos privados”. Cada gesto de consciência reverbera no todo.

Isso tem implicações profundas na saúde, porque a qualidade dos estados emocionais e espirituais influência o corpo e pode favorecer a cura, pois  a forma como olhamos e sentimos o outro altera também o campo que partilhamos e assim,  cada escolha individual participa na construção de uma realidade coletiva.

Ao tomar consciência disto, já não conseguimos viver da mesma forma. Deixamos de acreditar na ilusão da separação e passamos a assumir a responsabilidade de cuidar do que colocamos no mundo.

No Affectum, reconhecemos esta visão. Cada pessoa é mais do que um indivíduo isolado. É parte de um sistema familiar, social e até espiritual mais vasto, permanentemente em diálogo com o Campo. Seja através da terapia transpessoal, da abordagem transgeracional ou da justiça sistémica, trabalhamos sempre com esta consciência de que existe algo maior a orientar e a sustentar os processos de cura e transformação.

Assim, O Campo não é apenas um livro que nos inspira. É também um mapa que confirma aquilo que vivenciamos todos os dias, que nos mostra que a vida se desenrola numa rede invisível de relações e que o verdadeiro caminho é integrar as nossas raízes e encontrar o nosso lugar e sentido dentro do todo.

Como escreveu Lynne McTaggart, cada pensamento é uma forma de energia que viaja pelo Campo. A pergunta que fica é: que qualidade de energia escolhes partilhar com o mundo?