A ORDEM INVISÍVEL NAS FAMÍLIAS RECOMPOSTAS
“Não podemos mudar o passado, mas podemos transformar o seu impacto no presente.”
Virginia Satir
Há famílias que começam como um livro novo, páginas em branco, promessas por escrever. E depois há aquelas que nascem já com capítulos anteriores, histórias que não terminaram totalmente, personagens que continuam presentes mesmo quando já não vivem na mesma casa.
As famílias recompostas são assim. Não começam do zero. Começam de um lugar onde já houve amor, perda, rutura e onde, muitas vezes, ainda há vínculos invisíveis a pedir reconhecimento.
Uma mulher e um homem encontram-se, escolhem-se, querem construir algo juntos, mas não chegam sozinhos. Trazem filhos, memórias, histórias antigas e um sistema que já existia antes deste encontro. E é aqui que, muitas vezes sem saber, entram em jogo leis silenciosas, profundas, quase invisíveis, que organizam o amor. Porque o amor, por si só, não basta. O AMOR precisa de ordem.
Uma criança olha para o novo companheiro da mãe e pode até sentir curiosidade, abertura, mas há algo dentro dela que observa com cuidado, porque, no fundo, o seu coração já pertence a alguém. Ao pai. À mãe. Àquilo que veio primeiro.
E tal como nos disse Bert Hellinger, quem chegou primeiro tem precedência. Os pais vêm antes dos filhos, a primeira relação vem antes da segunda e a história anterior não desaparece só porque uma nova começou.
Quando esta ordem é respeitada, algo se aquieta, mas quando por amor ou por tentativa de compensar, alguém tenta ocupar um lugar que não é seu, tudo se confunde.
Um padrasto que tenta ser pai demasiado cedo, uma madrasta que quer ser aceite como mãe, uma nova relação que tenta apagar a anterior, são desordens que criam tensão e o sistema resiste às desordens.
A criança sente a desordem mesmo que não saiba explicar e pode fechar-se, rejeitar, afastar-se, não por falta de amor, mas por fidelidade. Porque há outra ordem igualmente forte: todos têm direito a pertencer.
O pai ausente continua a pertencer. A mãe que já não está continua a pertencer.
O ex-companheiro, a ex-companheira, todos fazem parte da história que construiu o presente. E quando alguém é excluído, esquecido, criticado, desvalorizado, o sistema reage.
Às vezes através de conflitos, outras vezes através de silêncios, outras ainda através das crianças, que sem saber, começam a carregar aquilo que não foi integrado.
Uma criança pode rejeitar um padrasto por amor ao pai, pode não aceitar a felicidade da mãe porque sente a dor que ficou para trás e aqui e mais uma vez, não é falta de amor, é amor em desordem. Porque existe uma terceira ordem, tão essencial quanto as outras: o equilíbrio entre dar e receber.
Numa relação de casal, este equilíbrio sustenta o vínculo. Mas nas famílias recompostas, ele pode ficar fragilizado. Há histórias anteriores onde alguém deu mais, sofreu mais, perdeu mais e essas marcas não desaparecem. Entram na nova relação.
Às vezes na forma de medo, outras vezes como expectativa e outras ainda como tentativa inconsciente de “fazer diferente”, mas o passado não se resolve ignorando-o, resolve-se reconhecendo-o.
Quando alguém consegue, internamente, fazer este movimento: “Sim, houve alguém antes de mim e esse alguém tem um lugar.”, algo muda.
Quando uma mulher honra a história do homem com a mãe dos seus filhos, sem competição, sem julgamento, algo se organiza.
Quando um homem reconhece o lugar do pai dos filhos da sua companheira, mesmo que ele não esteja presente, algo relaxa.
E, sobretudo, quando uma criança sente que não precisa escolher entre amar um e outro, o seu coração pode finalmente abrir.
Nas famílias recompostas, o amor precisa de mais consciência. Não porque seja mais fraco, mas porque está mais entrelaçado. Há mais histórias, mais vínculos, mais camadas, e por isso, também há mais oportunidade de crescimento.
Nada disto se constrói de um dia para o outro. O amor, aqui, é muitas vezes um caminho lento, feito de pequenos reconhecimentos, de lugares respeitados, de silêncios que não forçam, de presenças que não invadem.
O padrasto que não tenta substituir e por isso é aceite. A madrasta que respeita e por isso é incluída. A mãe que não apaga o pai e por isso liberta os filhos.
O pai que reconhece e por isso mantém o seu lugar. E, pouco a pouco, algo novo nasce, sem que seja perfeito ou ideal, mas que é verdadeiro.
Talvez o maior ensinamento destas famílias seja o de que o amor cresce quando cada um está no seu lugar. Não acima, não abaixo, não no lugar de outro, mas no seu. E quando isso acontece, mesmo no meio da complexidade, surge algo profundamente simples: um espaço onde todos podem pertencer.
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