Quando a alma não acompanha o relógio
“As árvores que crescem devagar produzem os melhores frutos.”
Molière
Há sementes que germinam em poucos dias e árvores que precisam de décadas para atingir a sua plenitude. Ninguém se aproxima de uma árvore e lhe exige que floresça antes do tempo. Ninguém acusa o inverno de demorar demasiado nem exige ao outono que produza frutos.
E, curiosamente, fazemos isso connosco. Exigimos que a dor passe depressa, que os lutos terminem rapidamente, que as respostas apareçam quando as queremos encontrar e que a transformação aconteça à velocidade das nossas expectativas.
Esquecemo-nos de que a vida interior possui uma temporalidade própria e é precisamente desta diferença que nasce a reflexão sobre o tempo psíquico e o tempo social. A sociedade organiza-se através do relógio. Dias, meses, anos, metas, calendários e prazos estruturam a vida coletiva e permitem-nos funcionar em comunidade. Existe um tempo para estudar, para trabalhar, para construir projetos, para constituir família e para alcançar objetivos. Esta organização é necessária e útil. O problema surge quando tentamos aplicar a mesma lógica à vida emocional.
O sofrimento humano raramente respeita calendários. O luto não termina porque passou um determinado número de meses. Uma ferida emocional não desaparece porque alguém nos diz que já deveríamos ter seguido em frente. A integração de uma perda, de uma separação ou de uma mudança profunda acontece num ritmo que não pode ser imposto de fora para dentro.
A psicologia profunda compreendeu esta realidade há muito tempo. Carl Gustav Jung descreveu o desenvolvimento psicológico como um processo de individuação que acompanha o ritmo singular de cada pessoa. Para Jung, a maturidade não dependia da idade cronológica, mas da capacidade de integrar experiências, conflitos, potencialidades e dimensões inconscientes ao longo da vida.
Também a neurociência e a psicologia contemporânea demonstram que as experiências emocionalmente significativas continuam presentes enquanto não encontram elaboração e integração. O tempo cronológico pode avançar, mas o tempo psíquico permanece suspenso sempre que algo importante ficou por sentir, compreender ou transformar. Na prática terapêutica encontramos frequentemente pessoas que sofrem, não apenas pela situação que vivem, mas pela sensação de estarem atrasadas em relação àquilo que acreditam ser o ritmo esperado. Sentem que já deveriam ter superado uma perda, reconstruído a vida depois de uma separação, encontrado o seu propósito ou resolvido conflitos familiares antigos.
Sucede que a alma não funciona por metas, tem um tempo próprio, sendo que tudo aquilo que precisa de amadurecer não pode ser apressado.
A abordagem sistémica acrescenta ainda outra dimensão a esta compreensão. Muitas vezes, os processos emocionais não pertencem apenas à história individual. Existem lealdades invisíveis, memórias familiares, perdas não elaboradas e dinâmicas transgeracionais que continuam a exercer influência sobre a vida presente. Quando isto acontece, o trabalho não consiste em acelerar a mudança, mas em criar espaço para que aquilo que precisa de ser reconhecido possa finalmente encontrar lugar.
Talvez uma das maiores formas de violência que exercemos sobre nós próprios seja exigir que a nossa vida interior acompanhe o ritmo da produtividade, da comparação e das expectativas externas. Vivemos rodeados por narrativas de sucesso rápido, recuperação rápida e felicidade imediata. No entanto, aquilo que verdadeiramente transforma um ser humano raramente acontece com rapidez.
A natureza ensina-nos isto. As estações sucedem-se sem pressa, as raízes crescem antes dos frutos, a gestação acontece no tempo necessário. Tudo aquilo que tem profundidade exige maturação e o mesmo acontece connosco.
Quiçá uma das aprendizagens da vida adulta seja compreender que existe um tempo para agir e um tempo para integrar. Um tempo para avançar e um tempo para permanecer. Um tempo para procurar respostas e um tempo para simplesmente habitar as perguntas.
Respeitar o tempo psíquico não significa resignação. Significa reconhecer que os processos humanos possuem uma inteligência própria. Significa abandonar a ilusão de que tudo pode ser controlado e aceitar que algumas transformações acontecem apenas quando estamos preparados para as acolher.
Porque o relógio mede o tempo que passa, mas a alma mede o tempo que transforma.
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