Porque compreender não é justificar
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.”
Carl Gustav Jung
Existe uma tendência profundamente humana para julgar. Fazemo-lo todos os dias, muitas vezes sem nos apercebermos. Julgamos comportamentos, decisões, relações, formas de educar, escolhas profissionais, separações, conflitos e até o sofrimento dos outros. O julgamento surge quase sempre como uma tentativa de organizar a realidade, de distinguir aquilo que consideramos certo daquilo que entendemos como errado, aceitável ou inaceitável. É um mecanismo que procura criar ordem num mundo complexo e, em certa medida, imprevisível.
Contudo, aquilo que o olhar sistémico nos ensina é que a realidade humana raramente cabe dentro das categorias simples do certo e do errado. Quando observamos uma pessoa apenas através do comportamento que manifesta, corremos o risco de reduzir toda a sua história a um único acontecimento, ignorando os contextos, as vivências, as lealdades invisíveis e os movimentos profundos que contribuíram para aquilo que vemos na superfície.
A compreensão sistémica nasce precisamente desta consciência. Não procura substituir a responsabilidade individual nem relativizar as consequências dos comportamentos. Procura, isso sim, ampliar o olhar.
Onde o julgamento pergunta quem está errado, a compreensão pergunta o que aconteceu. Onde o julgamento procura culpados, a compreensão procura significado. E esta diferença, aparentemente subtil, transforma profundamente a forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com os conflitos que inevitavelmente surgem na vida humana.
Na prática terapêutica observamos frequentemente que muitos comportamentos que geram sofrimento não surgem do nada. São respostas construídas ao longo do tempo, moldadas por experiências emocionais, por histórias familiares, por necessidades não satisfeitas, por medos profundos ou por feridas que nunca encontraram espaço para ser reconhecidas. Aquilo que aparece como agressividade pode esconder vulnerabilidade. Aquilo que surge como controlo pode esconder medo. Aquilo que parece indiferença pode ser uma estratégia de proteção construída perante experiências de abandono ou rejeição.
A abordagem sistémica não ignora o comportamento nem pretende desculpá-lo. Pelo contrário. Quanto mais profundamente compreendemos um fenómeno, maior se torna a nossa capacidade de assumir responsabilidade sobre ele. Compreender não significa concordar. Não significa absolver. Não significa dizer que tudo é aceitável. Significa apenas reconhecer que os seres humanos são mais complexos do que os seus erros e que, para além daquilo que fizeram, existe sempre uma história que merece ser vista.
Talvez um dos maiores contributos do pensamento sistémico seja precisamente esta capacidade de devolver humanidade às situações onde o julgamento rapidamente a retira. Quando observamos uma família em conflito, um casal em sofrimento ou uma organização mergulhada em tensões persistentes, percebemos que raramente existe apenas um culpado. Existem dinâmicas, movimentos, exclusões, lealdades e desequilíbrios que foram sendo construídos ao longo do tempo e que envolvem todos aqueles que pertencem ao sistema.
Bert Hellinger recordava frequentemente que aquilo que é excluído tende a regressar. Esta ideia ajuda-nos a compreender porque razão tantas vezes aquilo que julgamos nos outros continua a repetir-se de formas diferentes. O que permanece sem compreensão procura constantemente expressão. O que não encontra lugar continua a manifestar-se através de conflitos, sintomas, afastamentos ou repetições aparentemente inexplicáveis.
Talvez seja por isso que o julgamento raramente transforma. Pode condenar. Pode punir. Pode criar distância. Mas dificilmente produz consciência. A compreensão, pelo contrário, cria condições para que algo novo possa emergir. Quando alguém se sente verdadeiramente visto para além do seu comportamento, torna-se possível reconhecer responsabilidades sem ficar aprisionado à culpa. Torna-se possível reparar danos sem perder a dignidade. Torna-se possível mudar.
Num tempo em que a rapidez das opiniões muitas vezes substitui a profundidade da reflexão, a compreensão sistémica surge como um convite à complexidade. Um convite a olhar para além da superfície, para além das aparências e para além das narrativas simplificadas que frequentemente construímos sobre os outros e sobre nós próprios.
Porque compreender não é justificar. É ver mais longe. É reconhecer que cada ser humano é parte de uma história maior do que aquela que conseguimos observar à primeira vista. E talvez seja precisamente nesse movimento de ampliação da consciência que nasce a possibilidade de transformação. Não uma transformação imposta pelo medo da condenação, mas uma transformação que emerge naturalmente quando aquilo que estava oculto pode finalmente ser visto, reconhecido e integrado.
Na perspetiva sistémica, a verdadeira mudança raramente nasce do julgamento. Nasce da consciência. E a consciência começa quando abandonamos a pergunta “Quem está errado?” para dar lugar a outra, muito mais transformadora: “O que precisa de ser compreendido aqui?”
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