“Aquilo que é visto pode encontrar paz.”

Bert Hellinger

Vivemos rodeados de histórias que não conhecemos completamente. Algumas pertencem à nossa própria vida, outras começaram muito antes de nascermos e continuam a manifestar-se através das nossas escolhas, dos nossos relacionamentos, dos nossos medos e até da forma como habitamos o mundo.

A experiência clínica e terapêutica mostra-nos frequentemente que nem todo o sofrimento encontra explicação na biografia individual. Existem pessoas que repetem padrões relacionais sem compreender porquê. Outras carregam culpas que não parecem suas, sentem medos difíceis de contextualizar ou vivem bloqueios persistentes que resistem à compreensão racional. É precisamente neste território que a psicogenealogia e a terapia transgeracional ampliam o nosso olhar.

Autores como Anne Ancelin Schützenberger demonstraram que os seres humanos não vivem isolados da sua história familiar. Pelo contrário, estão profundamente ligados aos sistemas aos quais pertencem. Através do seu trabalho com o genossociograma, Schützenberger observou como os traumas, perdas, exclusões, segredos familiares e acontecimentos não elaborados podem deixar marcas que atravessam gerações e influenciam a vida dos descendentes.

Também Murray Bowen, um dos pioneiros da terapia familiar sistémica, mostrou como os padrões emocionais circulam nos sistemas familiares e como a diferenciação do indivíduo acontece sempre em relação ao seu contexto de pertença. O ser humano não pode ser compreendido fora das suas relações.

É neste enquadramento que surgem as Constelações Sistémicas desenvolvidas por Bert Hellinger. Importa, no entanto, fazer uma distinção importante, pois as s Constelações Sistémicas não constituem, por si só, uma terapia, sendo, em rigor, uma ferramenta terapêutica. Uma metodologia fenomenológica que permite observar dinâmicas familiares, lealdades invisíveis e movimentos relacionais que frequentemente permanecem fora da consciência.

Tal como um exame médico não constitui o tratamento, também uma constelação não substitui um processo terapêutico. A sua função principal é ampliar a consciência sobre aquilo que atua no sistema. O trabalho terapêutico acontece depois, através da integração emocional, cognitiva e relacional daquilo que foi observado.

Talvez seja precisamente esta característica que torna as constelações tão valiosas, pois permitem ver o que não é visível. Ver aquilo que estava oculto. Ver padrões que se repetem há gerações. Ver exclusões que continuam a produzir sofrimento. Ver vínculos interrompidos. Ver lugares que foram ocupados por amor, mas que deixaram de servir a vida.

Esta abordagem encontra ressonância noutras áreas do conhecimento. Carl Gustav Jung falava da necessidade de tornar consciente aquilo que permanece inconsciente, recordando-nos que “aquilo que não é trazido à consciência regressa como destino“. Embora Jung não tenha trabalhado com constelações familiares, a ideia de que conteúdos invisíveis influenciam profundamente a vida humana aproxima-se daquilo que muitas pessoas experienciam no trabalho sistémico.

Nos últimos anos, este universo tornou-se conhecido por um público mais vasto através da série Um Novo Eu, da Netflix. Embora se trate de uma obra de ficção e não de uma representação rigorosa da prática terapêutica, a série teve o mérito de despertar interesse pelas dinâmicas transgeracionais e pela influência das histórias familiares na vida presente. O seu maior contributo talvez tenha sido recordar algo que a abordagem sistémica conhece há muito tempo: muitas vezes procuramos soluções para problemas atuais sem compreender as raízes que os alimentam.

As Constelações Sistémicas convidam precisamente a esse movimento de aprofundamento. Não procuram substituir a psicoterapia, a medicina ou outras formas de intervenção especializada. Também não oferecem soluções mágicas para o sofrimento humano. O seu valor reside na capacidade de revelar contextos, ampliar perspectivas e criar novas possibilidades de compreensão.

Porque aquilo que permanece invisível continua frequentemente a influenciar a nossa vida. E porque, muitas vezes, a transformação começa quando aquilo que estava escondido pode finalmente ser reconhecido.

A junção da psicogenealogia, da terapia transgeracional e das Constelações Sistémicas que podes encontrar no Affectum permitem compreender que somos parte de uma história maior. Muito maior. Não para permanecermos presos a ela, mas para nos tornarmos mais livres na forma como a continuamos.