“A liberdade começa quando temos a coragem de assumir o nosso lugar, com tudo o que isso implica.”
Bert Hellinger
Confunde-se frequentemente a liberdade com a multiplicidade de opções que a vida hoje oferece, quando, na realidade, a verdadeira questão está na origem de onde escolhemos, e nunca no número das escolhas possíveis. No entanto, a experiência dita que quanto mais alternativas temos, mais subtil se torna a pressão para escolher aquilo que está já previamente legitimado, o dito caminho seguro, o percurso validado, a decisão que não cria ruptura nem causa constrangimentos.
Osho lembra-nos que, perante qualquer encruzilhada, existe uma tensão silenciosa entre duas forças. Por um lado, a mente condicionada. Por outro, o coração vivo. A primeira orienta pelo que é conhecido, pelo aceitável, pelo previsível, e por seu lado o coração vivo desafia-nos ao que desconhecemos, ao que vibra em autenticidade, ainda que incerto. E é exatamente aqui, neste espaço de tensão, que se revela um dos movimentos mais profundos da existência humana.
Na abordagem sistémica, nenhuma escolha é isolada. Cada decisão carrega em si a memória das relações, das histórias familiares e das lealdades invisíveis que herdámos dos dois sistemas de pai e mãe que trazemos dentro. Muitas vezes, aquilo que acreditamos ser prudência nada mais é do que fidelidade inconsciente ao sistema de origem. É o que acontece quando escolhemos o que é seguro porque alguém antes de nós não pôde arriscar, quando escolhemos o que é respeitável porque alguém foi excluído por ser diferente, quando escolhemos o que é esperado porque, em algum lugar da nossa história, o amor esteve condicionado ao cumprimento dessas expectativas. Isto são lealdades invisíveis, que fazem de nós guardiões de equilíbrios antigos e nos levam, sem darmos conta, a abdicar de nós próprios. E quando assim é, o expectável transforma-se numa forma subtil de sobrevivência emocional, numa tentativa de garantir pertença, mesmo que à custa da autenticidade e da liberdade.
A viragem acontece quando escolhemos ser quem somos, quando sentimos o coração a vibrar perante a vida que ressoa em nós, quando abraçamos a coragem de sermos livres, dando pernas ao coração, esse lugar mágico de reconexão com o Eu. Porque o coração vai muito além das emoções, sendo um verdadeiro lugar de integração, esse ponto onde o indivíduo deixa de se mover apenas por repetições ou padrões que se arrastam de geração em geração, e começa a agir em consciência, em presença, honrando o que veio antes, mas libertando-se de tudo isso.
Seguir o coração é um movimento de profunda e elevada responsabilidade, pois pressupõe reconhecer aquilo que herdámos, aquilo que carregamos, e aquilo que, finalmente, escolhemos transformar para seguir em liberdade.
Quando alguém escolhe a partir do coração, não está a romper com todo um sistema, mas está sim a reorganizá-lo, a permitir que continue em verdade e autenticidade. Está a introduzir uma nova possibilidade, a abrir um novo caminho.
Bem sabemos que o movimento autêntico gera impacto, mas é exatamente desse impacto que surge a perturbação necessária para que a transformação possa acontecer. É verdade que o sistema tende a reagir, dando nota de resistência, julgamento, afastamento e muitas vezes incompreensão. Não porque o caminho esteja errado, mas porque tudo o que é novo desestabiliza o equilíbrio anterior.
A abordagem sistémica mostra-nos que esta perturbação é, na verdade, o início da cura, pois aquilo que parecia desordem pode ser o surgimento de uma nova ordem mais alinhada com a vida que realmente queremos seguir. Ao escolher o que faz o coração vibrar, a pessoa deixa de viver em função da obediência ao passado e passa a contribuir para a evolução de todo o sistema. E isso exige coragem, porque escolher o que faz vibrar o coração implica assumir a responsabilidade de viver na exata medida da aceitação das suas consequências. E este é, talvez, o ponto mais exigente.
Quem na vida escolhe o que faz vibrar o coração garante algo essencial à sua existência. Presença. A presença de quem está inteiro na própria vida, de quem deixa de existir em modo de adaptação e passa a existir em modo de criação e autenticidade.
Na dúvida, a pergunta que o Affectum te sugere é: Esta escolha aproxima-me de quem verdadeiramente sou, ou mantém-me fiel a algo que já não me pertence? A resposta é só tua, e é o teu maior super poder. Quiçá traga desconforto, mas é nesse desconforto que encontrarás a liberdade.
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