“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.”
José Saramago
No Dia do Pai, talvez sintas vontade de celebrar, ou talvez sintas um silêncio difícil de explicar.
Talvez haja gratidão, ou talvez haja dor. Talvez as duas.
No Affectum, olhamos para o pai não apenas como a figura concreta que conhecemos, mas como um lugar no sistema familiar. Um lugar que nos dá direção, força e pertença. Independentemente da história que tens com o teu pai, há algo maior que te liga a ele: a vida.
Na visão sistémica desenvolvida por Bert Hellinger, cada filho recebe algo essencial do pai: a ligação ao mundo, ao movimento, à realização, à força para sair de casa e ocupar o seu lugar. O pai representa, simbolicamente, a estrutura, a lei, o limite, a direção, o impulso para crescer.
Quando rejeitamos o pai, seja por dor, ausência, crítica ou mágoa, muitas vezes rejeitamos inconscientemente partes de nós, como a nossa força, a nossa autoridade interna, a capacidade de prosperar.
Aceitar o pai, não significa concordar com tudo, nem significa justificar feridas. Significa reconhecer que, sem ele, não estaríamos aqui. E essa é uma verdade profunda.
Talvez por isso as palavras de José Saramago façam tanto sentido quando diz que “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.” A nossa história com o pai faz parte dessa memória, e a forma como a integramos, ou não, é parte da responsabilidade que assumimos pela nossa própria vida.
Carl Gustav Jung falava da importância de integrar a sombra, aquilo que rejeitamos, negamos ou criticamos.
Quantas vezes o pai carrega aquilo que não queremos ver? A dureza, a exigência, a distância emocional. Ou, pelo contrário, a fragilidade, a ausência, a incapacidade.
Integrar o pai dentro de ti é um caminho de maturidade emocional. É libertares-te da expectativa de que ele tivesse sido diferente, para poderes tornar-te inteiro. E, por vezes, o verdadeiro Dia do Pai acontece por dentro, em silêncio, no espaço íntimo da reconciliação.
Há pais fisicamente presentes, mas emocionalmente distantes. Há pais que partiram cedo. Há pais que nunca assumiram o lugar. E, ainda assim, o lugar do pai existe.
Quando o pai real não pôde dar, a vida encontrou outras formas de te dar a direção e esta pode vir de um avô, um tio, um professor, um mentor. O sistema tende a compensar.
Honrar o pai não é idealizar. É reconhecer o lugar, mesmo que vazio e permitir que a energia volte a fluir.
Se quiseres, hoje podes fazer algo simples: Fecha os olhos por um momento e imagina o teu pai à tua frente, como ele é, com as suas limitações e grandezas.
E, interiormente, diz: “Tu és o grande. Eu sou a pequena. Recebo de ti a vida, exatamente como veio e farei algo de bom com ela.”
Sente o que acontece no teu corpo. Não precisas forçar nada, só permitir.
No Affectum acreditamos que só conseguimos ter asas quando aceitamos as nossas raízes. O pai é raiz. Mesmo quando a terra foi difícil de lavrar.
Neste Dia do Pai, talvez o maior presente não seja o que entregas nas mãos, mas o que integras no coração.
Porque reconciliar-se com o pai é, muitas vezes, reconciliar-se com a própria vida.
FELIZ DIA DO PAI.
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