“A ausência da minha mãe é aquilo que sou.”
Hugo Gonçalves, sobre as raízes que nos ancoram
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves, é um livro autobiográfico sobre o retorno inevitável à matéria de que somos feitos, aos vínculos, silêncios, às lealdades invisíveis e a toda a herança emocional que se cola ao destino. Trata-se de uma viagem que, não o sendo, parece simples, de um filho que volta à aldeia onde a mãe viveu e morreu, após anos de afastamento. Quase nos seus quarenta, o autor recebe o testamento do avô materno (num saco de plástico) e isso dispara uma viagem, no mapa e na memória, que ele andava a adiar há décadas. O ponto de partida emocional é a tarde em que, ainda criança, soube da morte da mãe (13 de março de 1985), quando voltava da escola primária.
A partir daí, durante mais de um ano, vai atrás de pessoas, lugares e pistas para reconstruir quem foi a mãe e o que ficou por dizer. Desde gravações com a voz dela, espaços do hospital, episódios de infância (férias no Algarve), e também partes da vida dele que cresceram à sombra dessa perda, incluindo anos mais desgovernados fora de Portugal (como Nova Iorque), tentativas de fuga através do amor, do sexo e das drogas, e momentos de confronto e aproximação com o pai e o irmão (há até uma road trip). No fundo, a história não é “só” sobre a morte da mãe, é sobre como uma ausência molda uma identidade e uma família ao longo de décadas e como, ao tentar escrever sobre a morte, ele acaba a escrever sobre a vida.
A mãe é o primeiro chão, é origem e abismo. Quando esse chão não é firme, percebemos amaternidade fragilizada, a pobreza, a dureza de uma vida rural, o peso de expectativas não cumpridas, mesmo quando essa mulher faz o melhor que pode e que sabe, não o que o filho idealizaria receber. Perante isso o filho oscila entre dois polos, a rejeição e a fidelidade oculta. Afasta-se da mãe para construir a sua própria vida, mas carrega-a dentro.
O afastamento, aqui, não resolve nada. Apenas adia o confronto inevitável.
A história revela a mãe para lá da pessoa. A mãe como um território. Como passado, classe social, dor familiar, silêncio antigo. Ao regressar para organizar o seu funeral, o filho percebe que não está a enterrar uma mulher, está a enterrar partes de si que nunca teve coragem de olhar. Anne Ancelin Schützenberger descreve a força das “lealdades familiares invisíveis” através dos
comportamentos, culpas, padrões, repetições entre gerações. Neste livro essa força é brutal. O protagonista tentou escapar ao destino da aldeia, às rotinas pesadas, às sombras da maternidade truncada. Construiu outra vida, outra identidade, urbana, autónoma, aparentemente livre. Mas basta voltar para perceber que a fuga nunca aconteceu.
O corpo lembra. O sotaque regressa. Os sentimentos antigos reaparecem violentamente.
O passado, que parecia morto e enterrado, está apenas à espera de quem lhe dê voz. O filho descobre que, por mais que se tenha afastado, a mãe está inscrita no seu código emocional. E é esse o ponto central, não se abandona o sistema que nos gerou. Apenas podemos transformar a relação com ele.
Filho da Mãe atravessa o luto como quem resgata a memória. O funeral é mais do que despedida, é um ritual de reposicionamento de um filho perante a mãe. É nesse ritual que percebe três coisas essenciais: A mãe deu o que pôde, não o que ele desejava; a sua identidade, por mais urbana e distante, está mapeada pelas origens, e o que mais importa é aceitar a mãe como ela é. Tomá-la na sua inteireza.
O regresso à aldeia é o regresso ao sistema original. É ali, entre vizinhos que sabem demais e parentes que sabem de menos, que o narrador se vê ao espelho, percebendo que o que julgava ter deixado para trás continua vivo no seu corpo, na sua história, no sentimento ambivalente que a mãe lhe desperta. A aldeia funciona como matriz, como espécie de útero arcaico onde o filho é forçado a revisitar tudo aquilo que moldou o seu carácter, a sua resistência e também as suas fragilidades.
Este livro mostra o que acontece quando há vínculos afetivos feridos, quando há transmissões de carência entre gerações, quando há papéis parentais invertidos, quando os filhos crescem no lugar do adulto que faltou, quando os segredos familiares tudo condicionam. O protagonista percebe que pertence ao seu sistema mesmo quando o rejeita.
A mãe, com todas as falhas, é também a sua origem de delicadeza, dureza e resistência.
A identidade é construção sistémica, nunca individual. E a maturidade é o momento em que conseguimos olhar para trás sem fugir e sem negar. Porque, inevitavelmente, somos parte de um destino coletivo que começou antes do nascimento.
O filho do romance tenta sobreviver à dor da mãe. Mas, ao voltar, percebe que parte dessa dor é também dele. E o que se herda precisa de ser reconhecido para se libertar, e não mais se perpetuar. Hugo Gonçalves escreve como quem sabe que a infância sedimenta, e que para viver plenamente o presente é preciso regressar às ruínas de onde viemos, recolher o que ficou por resolver e, de algum modo, devolver aos nossos pais um lugar digno dentro de nós.
Só depois disso é possível seguir.
Só depois disso um filho pode, verdadeiramente, ser livre.
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