“Ela era o meu abrigo e a minha tempestade”

Arundhati Roy

Se me perguntares o que é isso de TOMAR MÃE dir-te-ei para leres este livro.

A relação mãe e filha, historicamente moldada entre o afeto e a expectativa, revela no livro Meu Abrigo, Minha Tempestade, de Arundhati Roy, uma das expressões mais complexas da condição humana, oscilando entre a paradoxal experiência de ser origem e rutura, simultaneamente. Roy constrói um espaço narrativo onde amor e conflito coexistem como forças estruturantes, como se fossem duas marés internas capazes de mover destinos, silenciar vozes e libertar identidades. Um espaço onde o amor e o conflito coexistem.

A narrativa não romantiza o vínculo materno, pelo contrário, apresenta-o na perspetiva mais crua e real, feita de memórias compartilhadas, dores herdadas, gestos não ditos e movimentos corporais que antecedem a linguagem. A mãe surge como sujeito histórico, muito além da figura cuidadora que não consegue ser, aliás, atravessado por opressões de casta, cultura e moralidade, sendo nesse atravessamento que a filha se reconhece e se rebela. O afeto, aqui, é um campo de confronto e, inevitavelmente, de crescimento.

Trata-se de uma excelente reflexão sobre como os laços entre mãe e filha são a base de mil projeções e compensações transgeracionais. A filha, muitas vezes, herda não apenas um sobrenome ou uma ancestralidade, mas as feridas que ainda não foram sequer nomeadas, o luto que não foi vivido, a coragem que precisou ser exilada. Roy revela o não-dito como herança, uma herança silenciosa, mas determinante.

No contexto familiar, a mãe pode ser abrigo, aquele espaço onde a subjetividade encontra permissão para nascer. E pode em simultâneo ser tempestade, aquela imensidão onde, para sobreviver, será necessário separar, romper, renomear e fazer diferente. Esta dualidade, longe de ser patológica, faz parte de um processo identitário, pois a filha descobre quem é ao descobrir quem não pode mais ser. E a mãe, em contrapartida, confronta a mulher que não conseguiu ou não foi autorizada a ser com a mãe possível que foi.

A maternidade considerada sistemicamente exige que, por amor, a filha se diferencie da mãe, se distancie das amarras de origem. Porque, quando uma filha se afasta cumprindo a sua verdade, não recusa o amor, mas protege-o. Quando confronta a mãe, em consciência, pode curar o sistema de. A relação de mãe e filha não é uma linha reta de transmissão, mas uma espiral num movimento constante que avança, retorna e ressignifica.

As estruturas sociais, patriarcais, morais, e religiosas moldam a forma como as mulheres se relacionam entre si. As mães que carregaram em si o silêncio tendem a educar no silêncio. As mães que não receberam expressões de amor serão contidas no amor para com os seus filhos. Isto acontece por uma questão de sobrevivência, e não por maldade como tantas vezes é sentido pelos filhos. É no diálogo entre a dor antiga e a nova consciência que reside a possibilidade de cura. É no profundo reconhecimentos dos limites que a mãe carrega em si que a filha consegue verdadeiramente tomar a mãe, sendo exemplar esta narrativa neste domínio.

A história real desta filha que, apesar de toda a dor e para além de toda a ausência, toma a mãe no fundo do seu coração, mostra que o reconhecimento é mais forte e transformador do que qualquer reconciliação forçada. Nomear o que doeu, reconhecer o que faltou, legitimar o que excedeu, tudo isto constrói uma ponte mais sólida do que o esquecimento. A relação mãe e filha neste universo literário não se resolve nem termina com final feliz como romantizou a indústria cinematográfica, mas transforma-se profundamente na descoberta de uma linguagem possível e verdadeira entre ambas.

Meu Abrigo, Minha Tempestade ensina que a verdadeira reconciliação entre mãe e filha só acontece quando ambas se vêm como mulheres, inteiras, contraditórias, marcadas por circunstâncias distintas, mas sempre ligadas por uma força que antecede qualquer escolha. O amor revela-se neste encontro que acontece quando se aceita uma mãe tal e qual como ela é, na sua humanidade. Neste assentimento, neste tomar a mãe.

Uma história como tantas histórias pelo mundo fora sobre esta relação íntima e única entre mãe e filha, sobre o lugar das mulheres na história e sobre os silenciosos acordos de sacrifício que sustentaram gerações inteiras. Compreender na alma este vínculo é reconhecer a humanidade de quem veio antes, sem idealizar, sem julgar, sabendo que, na grande cadeia dos afetos, mães e filhas são e serão sempre abrigo e tempestade.