Uma leitura sistémica de “As Mensagens Escondidas na Água”, de Masaru Emoto
Entre a ciência que redescobre e explora cada vez mais a complexidade dos sistemas vivos e a terapia sistémica nos lembra que nada existe isoladamente, a obra As Mensagens Escondidas na Água surge como uma provocação filosófica e simbólica: e se a matéria fosse mais sensível às relações do que supomos? E se a água, fundamento da vida e substância que compõe cerca de 70% do corpo humano em adultos, for também um elemento vivo para compreender a memória, a emoção e o vínculo? É esta a proposta de Masaru Emoto, que ficou conhecida pela ideia de que palavras, intenções, música e estados emocionais influenciam a cristalização da água, revelando padrões harmónicos ou caóticos. Ainda que estas afirmações não habitem o domínio da ciência, por falta de consenso, a verdade é que são frequentemente classificadas como pseudociência, onde se percebe que a força do seu trabalho reside além da sua literalidade científica, atenta a força simbólica e sistémica das questões que levanta.
Assim como na abordagem sistémica que entende estar tudo ligado, e considera o ser humano como um sistema em relação, e não como indivíduo fechado em si mesmo, onde corpo, emoção, linguagem, história familiar e campos de pertença se entrelaçam e comunicam, Masaru Emoto fala de relações a propósito da observação da água. Isto porque, se a água é o grande meio de circulação da vida, através do sangue, linfa, líquido amniótico e lágrimas, como não pensar a água como portadora de memória? Porque as águas lembram, no verdadeiro sentido fenomenológico. Lembram as células, lembram o corpo, lembram os sintomas.
A psicogenealogia e as abordagens transgeracionais recordam-nos que o corpo muitas vezes expressa o que a palavra silencia. O sintoma pode ser memória líquida de algo não integrado. Neste sentido, a pergunta de Emoto atravessa uma questão profundamente sistémica: Que marcas deixam em nós as palavras que recebemos? Se um ser humano cresce exposto a humilhação, crítica ou violência, que geometria emocional se organiza internamente? E se cresce em reconhecimento, amor e pertença, que ordem se estrutura?
Ainda que os cristais de Emoto possam não ser consensuais enquanto evidência científica, a sua imagem, passível de ser observada por todos, traduz-se numa poderosa linguagem simbólica para pensar o impacto invisível das relações. Na justiça sistémica e nas constelações familiares inspiradas em Bert Hellinger, a palavra não é apenas comunicação, é força organizadora. Porque bem sabemos que há palavras que reconciliam, e há palavras que fragmentam, como também há palavras que devolvem dignidade, e outras que adoecem.
Quando Emoto escreve “amor” sobre a água e vê nisso uma hipótese de reorganização, podemos lê-lo sistemicamente como metáfora de uma verdade relacional profunda, a de que o reconhecimento ordena. Como dizia Bert Hellinger, “Aquilo que é visto pode encontrar paz.” Ver, nomear, honrar, tudo isto reorganiza sistemas.
Sendo o corpo maioritariamente água, esta obra suscita outra questão maior: se carregamos água, carregamos também ressonância? A neurobiologia do trauma já demonstra que experiências emocionais moldam respostas fisiológicas, hormonais e somáticas, não porque a água “obedeça” a pensamentos mágicos, mas porque o corpo inteiro responde a campos emocionais reais. Já sabemos que o stress altera química, que o medo contrai, a confiança regula e o amor também. Neste sentido, Emoto pode ser lido como linguagem do sensível, pois a água que retrata são um espelho do que as relações fazem em nós.
Talvez por isso a contribuição mais bela deste livro seja ética. Se as palavras importam, falemos com cuidado. Se as emoções reverberam, cultivemos presença. Se somos sistemas em relação, cada gesto toca mais longe do que supomos. E talvez seja essa a “mensagem escondida” mais profunda da água. A mensagem de que a vida se organiza pela qualidade dos vínculos que estabelecemos. A água flui quando não encontra bloqueio, os sistemas também. Quando o amor encontra ordem, a vida move-se. Quando a exclusão endurece, o fluxo interrompe-se.
Importa recordar que as palavras mudam pessoas. E que as pessoas mudam sistemas. Num corpo composto de tanta água, talvez cuidar daquilo que dizemos, sentimos e transmitimos seja também cuidar do invisível que nos constitui. E cuidar do invisível que nos constitui talvez seja a melhor forma de cuidar da dimensão visível de quem somos. Sempre, com Affectum.
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