Há histórias nas nossas famílias que ficaram presas no tempo. Decisões mal compreendidas. Silêncios que gritam. Pessoas que partiram sem despedida.
A escrita sistémica é um caminho de cura profundo, que permite dar voz a essas histórias esquecidas e devolver paz ao que ficou por resolver.
Carta sistémica a um avô que foi para o Brasil e nunca mais voltou
Querido Avô,
Hoje escrevo-te com o coração cheio de perguntas, mas também com um profundo desejo de honra e reconciliação. Durante muitos anos, a tua ausência foi um silêncio pesado na nossa história. Sabíamos que tinhas ido para o Brasil, mas pouco ou nada sabíamos de ti, da tua vida por lá, das tuas dores, das tuas escolhas.
E no entanto, a tua ausência fez parte de nós. Crescemos com esse vazio que ninguém nomeava. Cada gesto da avó, cada olhar da minha mãe, trazia, sem o saber, uma sombra da tua partida.
Avô, hoje quero dizer-te que te vejo.
Vejo o homem que, por alguma razão profunda, talvez desespero, talvez sonho, talvez medo, escolheu partir.
Não sei o que te levou, mas escolho confiar que fizeste o melhor que soubeste, com os recursos que tinhas.
Não te escrevo para julgar, mas para libertar. Libertar-me a mim e libertar-te a ti.
Porque levo em mim algo do teu destino, e talvez, sem saber, tenha tentado compensar a tua ausência, sendo demasiado presente, demasiado responsável, ou então, repetindo a tua fuga de outras formas.
Hoje entrego-te de volta o que é teu. A tua história, com todas as suas dores e esperanças, pertence-te. E eu fico apenas com o que é meu.
Se em algum lugar do tempo e do espírito ainda me podes ouvir, quero que saibas:
Honro-te como meu avô. Reconheço-te.
Deste-me a vida, e por isso já fizeste o suficiente.
Agora, sigo em paz.
E levo comigo a força do que foi, para transformar o que será.
Com amor e respeito,
tua neta
Dar voz ao que nunca foi dito. Libertar o que nunca foi chorado. Curar o que sempre pesou.
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