Em 2001 Joan Garriga, psicólogo, cofundador e diretor do Institut Gestalt de Barcelona (Instituto de Psicoterapia e Relações Humanas), entrevistou Bert Hellinger, que falou sobre as constelações familiares e as suas compreensões acerca das Ordens do Amor. Bert Hellinger tornou-se uma das figuras psicoterapêuticas de maior impacto de sempre, sendo prova disso a audiência que atraía nos seus workshops e seminários, na Alemanha e no mundo inteiro, com a presença de centenas de pessoas que testemunharam a subtileza e mestria com que exerceu o velho ofício de curar a alma. O seu trabalho comove, porque toca algo muito sagrado e nuclear dentro de cada pessoa. Tal como as suas palavras.

A Alma Familiar e o Amor

O método em si é simples: o cliente escolhe, guiando-se pela sua própria intuição, representantes para as pessoas que integram o seu sistema familiar atual ou de origem, incluindo um representante para si mesmo. A partir daí, desenrola-se a dinâmica de compreensão do sistema e os movimentos da alma familiar, regidos em todos os casos pelo amor.

Um amor que adoece quando atua magicamente e que cura quando é possível reconhecer as dinâmicas e aceitar a realidade tal como ela é. Nas constelações, através da abertura à realidade familiar própria, da compreensão e expressão dos sentimentos dos participantes, do uso de frases curativas ou rituais de linguagem corporal, consegue-se formar uma imagem familiar mais sintonizada com o sistema, orientada para boas soluções ou para a aceitação consciente do destino.

Às vezes, o movimento amoroso em direção aos pais, que foi interrompido por alguma razão, está na origem como dor não canalizada, transformada em doença ou mal-estar.

Joan Garriga – Falemos da alma. Dizes que une e dirige os destinos de uma família e dos seus membros. Como é que o terapeuta se une a essa alma quando trabalha com o cliente?

Bert Hellinger – Quando falo com o cliente, falo de alma para alma, por isso estabelece-se esse contacto “especial”. É importante evitar que o cliente dê muitas explicações. Eu não vejo o indivíduo isoladamente, mas integrado na sua família e no seu contexto.

Às vezes, quando a questão é pessoal, tenho de trabalhar de forma individual, tentando restabelecer o movimento amoroso interrompido numa idade precoce relativamente a um dos pais. Pelo olhar e pelas lágrimas vejo a idade que tinha então, e é aí que o acolho. Nesses casos, uma constelação não faz sentido. Umas vezes trabalho a sós com o cliente, outras é necessário fazer a constelação, especialmente quando se trata de mortes, suicídios ou quando há outros membros da família implicados.

Joan Garriga – Uma ideia central para ti é que o amor cresce e floresce dentro de uma ordem. Como foste descobrindo as Ordens do Amor?

Bert Hellinger – Já nem sei quando comecei, foi progressivo. Mas houve realmente momentos-chave no meu percurso em que, de repente, compreendi algo. Um deles foi durante o meu primeiro trabalho com a terapia Gestalt. Outro foi um artigo de Jay Haley, onde ele descreve um caso numa escola em que um professor, em vez de se juntar aos outros professores, alia-se aos alunos e isso gera uma desordem fatal. Aí percebi que havia uma ordem de prioridade e a necessidade de não ultrapassar os limites.

Também foi importante o livro Lealdades Invisíveis, de Ivan Boszormenyi-Nagy. Mas o essencial foi a observação da consciência. Observei a consciência (moral) durante seis anos e percebi os seus diferentes níveis. Vi que nas famílias todos se comportam segundo certas leis que eles próprios desconhecem, e quando o movimento vai contra essas leis, desenvolvem-se a desordem e a infelicidade.

A descoberta dessa consciência inconsciente, que dirige a família, levou-me a compreender as implicações entre os seus membros. Só assim podemos encontrar as ordens nas quais o amor se pode desenvolver, um amor que se orienta por determinadas leis, leis mágicas e imaginárias.

Joan Garriga – Podes dar algum exemplo?

Bert Hellinger – Claro que sim. Um filho pode dizer inconscientemente: “Se eu morrer, a minha mãe pode viver”, e então adoece ou morre. Ou, na geração seguinte, quando alguém é excluído da família, um filho pode ter de retomar esse sofrimento para o expiar. Esta é uma lei na qual esta consciência se orienta – e pelas suas consequências, é uma lei fatal; é um amor, sim, mas um amor que exige que o excluído seja reconhecido e reintegrado na família por alguém da geração seguinte através da identificação. Mas esse excluído não recebe qualquer benefício com isso. No fundo são leis sinistras e terríveis que se desenvolvem neste nível.

As tragédias gregas são a versão mais explícita destas leis, e o cristianismo também, por exemplo, também as segue: o Deus que chamamos de bondoso permite que o seu filho seja sacrificado. Desde então, tentou-se mudar o destino por meio do sacrifício, acreditando que os poderes superiores só poderiam ser reconciliados com sangue. Isto é fatal, mas no fundo trata-se de uma ordem do amor.

Neste contexto também é terrível ver que qualquer progresso humano custa muito sangue. Por exemplo, a Guerra Civil em Espanha, a ordem que tem hoje este país seria impensável sem essa guerra, e o mesmo acontece com a Europa. É algo que vai acontecendo com o desenrolar da história, e nós tendemos a transferi-lo para os seres humanos; isto acontece porque há homens maus, mas se as boas pessoas lutam contra os maus, no final acabam sendo piores. Assim acontece, e apesar de não o entender até à última consequência, levo-o a sério.

Joan Garriga – E o que nos dizes sobre as Ordens do Amor que curam?

Bert Hellinger – Isso é o que é verdadeiramente revolucionário. As Ordens do Amor que curam surgem quando a pessoa já passou pela sua purificação, renunciando à esperança de que através do sacrifício se consiga algo; quando se reconhece o amor da pessoa por quem se queria sacrificar.

O trabalho com constelações familiares mostra que quando há implicações trágicas aparentemente inevitáveis, pode surgir uma solução. Para isso, é preciso renunciar à camada superficial em que as ordens nos levam à fatalidade. Assim, é necessário que o terapeuta renuncie a toda a indignação, mesmo quando é especialmente duro – como, por exemplo, num abuso infantil, e depois passar a um nível profundo e, de repente, pode surgir uma solução de amor, sem encobrir nada, sem perdoar nada, sem absolver ninguém das consequências da sua culpa. Isto é o revolucionário deste trabalho, e é algo que vai muito além de qualquer escola terapêutica.

O meu trabalho não compete com nenhuma delas. Penso que é algo genuinamente humano à disposição de todos e que não deve ser absorvido por nenhuma escola. Todos o podem ver e aplicar, não precisam remeter-se a ninguém, nem sequer a mim como se eu o tivesse inventado. Eu apenas me entreguei a isso, flui através de mim e eu afasto-me.

Joan Garriga – Já falaste de purificação. Podes desenvolver um pouco mais essa ideia?

Bert Hellinger – A purificação inclui aceitar o mundo tal como é, com a alegria e a dor, com a saúde e a doença, com a vida e a morte. Isto é o mais importante. Quando o terapeuta tem esta atitude, a aceitação do mundo gera serenidade, há uma atenção amorosa sem pretensões de poder, sem medo e sem intenções. Se algo não funciona, ele diz: “cheguei ao meu limite”, e esse reconhecimento dos seus próprios limites tem um efeito curativo.

É semelhante à fenomenologia filosófica que aceita os fenómenos como são, expondo-se a eles e sabendo esperar, o que permite que o ponto de vista se amplie. Assim, do todo pode-se distinguir o essencial. De facto, esta é a atitude da filosofia fenomenológica aplicada à psicoterapia: não se vê apenas o cliente, mas toda a sua família; não se está concentrado apenas nele ou nela, mas também em todas as pessoas com quem se relaciona. Assim é possível ver o que realmente importa. Por exemplo, aquela avó que sofreu muito no parto e que ficou com doenças crónicas. Nesse caso, a avó era o essencial.

Joan Garriga – E o que pensas sobre a ideia de que a confiança sem interferências leva a um bom lugar, que simplesmente seguir o impulso vale a pena?

Bert Hellinger – Quando falamos de seguir o impulso, depende sempre de que impulso se tratar. Quando trabalhamos com constelações e escolhemos representantes para desempenhar o papel dos membros da família, pedimos que primeiro essas pessoas se centrem e deixem de lado os seus desejos e ideias pessoais. Isso é algo que o cliente não consegue fazer, mas o representante sim; o cliente apenas justificaria o problema. Portanto, tudo depende do nível de onde vem o impulso.

Na mística há um princípio importante: pede-se uma purificação dos sentidos e do espírito para um segundo lugar; recolher-se no centro vazio. Se isso acontecer, as pessoas estão em sintonia e pode-se seguir. Também o terapeuta tem de estar purificado, isso permite que surja o impulso para o próximo passo. Se um terapeuta compreende as Ordens do Amor, pode ver se um movimento está ou não em sintonia com elas.

Não é suficiente que os clientes sigam o seu próprio impulso. Dou-me conta de qual é o passo seguinte e percebo também a resistência que o cliente ou o representante oferece. Às vezes, é preciso respeitar que sigam o seu próprio impulso, mas outras vezes é preciso cortar quando sentimos a resistência. Por exemplo, quando alguém fecha os olhos, ou interrompe a respiração, o momento não flui. Portanto, o princípio da autorregulação é realmente algo muito complexo.

Joan Garriga – A minha experiência com o teu trabalho vai além da psicoterapia no sentido estrito e alcança uma área silenciosa de conhecimento sagrado que todas as pessoas têm e podem reconhecer. Qual achas que é a tua contribuição para a psicoterapia ou outras áreas?

Bert Hellinger – O meu trabalho faz parte da psicoterapia quando se tratam assuntos como a relação de casal, esquizofrenia, depressões, etc. Mas depois, nos meus livros, descrevo as Ordens do Amor. Aí dou uma explicação extensa e elas atuam por si mesmas em muitas famílias sem fazer mais nada, sem qualquer psicoterapia, simplesmente através das compreensões. Os casais compreendem-se melhor, os pais tratam melhor os seus filhos, os assistentes sociais sabem melhor como lidar com adopções, por exemplo, tendo mais respeito pelos pais biológicos. E Assim estas compreensões se vão introduzindo em muitas áreas, infiltrando-se também no mundo das organizações e das empresas.

Joan Garriga – Impressionou-me muito o teu trabalho e senti uma maior familiaridade com a morte, uma noção mais clara entre a vida e a morte e do mundo dos mortos, e como a morte concluída é um lugar de paz. Gostava que falasses um pouco da morte, uma vez ouvi-te dizer “a morte é algo maior”.

Bert Hellinger – O reino dos mortos é maior do que o dos vivos, e vejo que voltamos a cair num fundo último, ou primeiro, de onde também emergimos. O tema dos mortos é algo que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos e ainda não chegou ao fim, ainda há muito mais, mas ainda não sou capaz de o captar. Preciso de mais experiência, em cada workshop ganho novas compreensões, é algo que de alguma forma vai crescendo.

Falando do futuro e da morte, o que agora interiormente me ocupa muito, é o tema da esquizofrenia. É algo que não se pode captar apenas com constelações que se movem num primeiro plano, algo que alcança o reino dos mortos de uma determinada forma que ainda não consigo ver claramente. Por isso me exponho a isso de forma fenomenológica, para, mais tarde, compreender com maior clareza. O feedback da pessoa “eu vivi isso desta maneira ou daquela” é um ponto de orientação para continuar a trabalhar.

Joan Garriga – No workshop fizeste uma distinção entre a atitude de “sou um mensageiro de algo espiritual” e a atitude que descreves como “vibrar numa mesma alma”. Gostaria de te perguntar sobre o espiritual, o que tu fazes pode-se considerar espiritual?

Bert Hellinger – Costumo evitar a palavra espiritual sempre que posso, porque é muito abusiva. E a maioria dos que se dizem espirituais, negaram-se à purificação. Quando alguém passou por ela, já não a menciona. Quem fala disso ainda não passou pela experiência.

Do divino temos uma intuição: é mais familiar ao não-ser do que ao ser, e encontra-se muito longe; quando deixamos que aquilo que está muito longe envie os seus raios para o nosso interior e permitimos que vá atuando, então sentimo-nos tranquilos. Mas isso não nos dá instruções para agir, nem nos revela nada. Dizer isto é muito ousado, mas eu digo-o. Em contrapartida, aquilo que atua, aquilo de onde nos vêm as instruções para agir, a isso eu chamo alma e tem algo a ver com o ser.

Posso oferecer uma imagem: tudo aquilo que é, é finito e está rodeado de um não-ser que é muito maior e infinito. Através do reconhecimento do não-ser, sem que este atue diretamente, aquilo que é ganha grandeza; é simplesmente o reconhecimento que causa esse efeito. Portanto, a alma é, mas num nível diferente do espiritual, e a alma atua, e eu posso entregar-me a essa alma. No entanto, a alma atua em diferentes níveis: um nível superior, e depois um nível inferior, mais profundo. No meu trabalho, fui aos poucos descendo até esse nível mais profundo que se vai revelando, e talvez haja ainda outro nível mais além, ao qual agora me estou a aproximar, mas que ainda não consigo captar. Esse nível tem de se manifestar no trabalho, por isso é também tão importante que estas compreensões resultem do próprio trabalho. Sem ele, eu não poderia aprender nada, não se pode simplesmente imaginar, tem de se ver. É por isso que amadurecemos com este tipo de trabalho, é um desenvolvimento humano profundo, uma sintonia.

Joan Garriga –  Para mim, tudo isto parece um cântico ao Amor.

Bert Hellinger — Sim, isso agrada-me. É isso mesmo, um cântico ao Amor, exatamente.

Joan Garriga –   Ia perguntar-te sobre a relação com a psicologia transpessoal, mas já não sei se me interessa.

Bert Hellinger  –  O conceito de transpessoal é algo que eu rejeito; há como que uma pretensão aí, tal como no conceito de espiritual. Temos de o ver como algo simplesmente terreno, absolutamente comum, integrado nas relações simples e humanas… Às vezes divirto-me a observar algum mestre espiritual, comparando-o com uma mãe que tem dez filhos… quem é mais grandioso? o que é mais grandioso? Também me ocorre a história de um bom mestre Zen, muito importante e muito famoso, que era casado, e a mulher dele dizia: “Isso da iluminação, quem determina e decide sou eu”.

Créditos do livro “Bert Hellinger y Mark Wolynn y las Constelaciones familiares”, de Lola Rodriguez-Brenner, com tradução livre do Affectum.