Setembro não é apenas um regresso. Pode ser um reencontro.
“E agora que já não tens de ser perfeito, podes ser bom.”
John Steinbeck
Existe algo de simbólico no mês de setembro.
Embora o calendário nos diga que o ano começou em janeiro, para muitas pessoas é em setembro que surge a verdadeira sensação de recomeço. As férias terminam, as rotinas regressam, os projetos retomam o seu lugar e a vida parece voltar a ganhar estrutura. Como se, depois de uma pausa, voltássemos novamente ao movimento.
Talvez setembro nos convide a algo mais profundo do que simplesmente regressar. Talvez nos convide a perguntar: regressar a quê?
Nem todos os recomeços são verdadeiros recomeços. Muitas vezes retomamos a vida exatamente no ponto onde a deixámos. Voltamos aos mesmos hábitos, às mesmas pressas, às mesmas exigências e aos mesmos automatismos. Repetimos os mesmos movimentos esperando resultados diferentes. Falamos de regresso, não de transformação.
Um recomeço consciente nasce de outro lugar. Nasce quando aproveitamos os momentos de pausa para observar a direção que estamos a seguir, quando deixamos de perguntar apenas o que temos de fazer e começamos a perguntar quem queremos ser. Quando trocamos a urgência da produtividade pela reflexão sobre aquilo que realmente importa.
A natureza conhece bem este princípio. Nenhuma estação existe apenas para produzir. Há um tempo de expansão, e há um tempo de recolhimento. Há um tempo de ação, e há um tempo de integração. O verão, com o seu ritmo mais lento, oferece frequentemente essa oportunidade de pausa que a vida quotidiana nem sempre permite. E é precisamente durante as pausas que muitas vezes ouvimos aquilo que o ruído constante nos impede de escutar. É aí que percebemos o cansaço que ignorávamos, reconhecemos relações que pedem atenção, tomamos consciência de escolhas que deixaram de fazer sentido e sentimos desejos que tinham sido adiados.
A abordagem sistémica recorda-nos que a consciência precede a mudança, pois antes de transformar qualquer realidade é necessário vê-la. Antes de escolher um novo caminho é necessário compreender o lugar onde nos encontramos.
Por isso, os recomeços mais importantes raramente começam por decisões grandiosas. Começam por pequenos movimentos de consciência. Uma conversa que precisava de acontecer. Um limite que precisava de ser definido. Uma escolha que estava a ser adiada. Uma reconciliação consigo próprio. Uma nova forma de olhar para uma antiga situação.
São muitos os que chegam a setembro carregando uma lista de objetivos. Querem fazer mais exercício, organizar melhor o tempo, mudar hábitos ou concretizar projetos que ficaram suspensos. Tudo isso pode ser importante. Mas existe uma pergunta que talvez mereça vir antes de todas as outras:
O que é que a minha vida me está a pedir neste momento?
A resposta nem sempre será uma ação. Por vezes será descanso. Outras vezes será coragem. Outras ainda será paciência, aceitação ou mudança.
Na perspetiva da psicologia profunda, Carl Gustav Jung recordava que o desenvolvimento humano acontece através de um processo contínuo de individuação, um caminho de aproximação àquilo que somos verdadeiramente. Esse processo não segue calendários nem metas externas. Acontece sempre que nos tornamos mais conscientes de nós próprios.
Talvez seja por isso que os recomeços mais transformadores não sejam aqueles que mudam a agenda. São aqueles que mudam a consciência.
Setembro pode ser apenas o regresso à rotina. Ou pode tornar-se um convite para regressar a si. Ao que valoriza. Ao que sente. Ao que verdadeiramente importa. Porque recomeçar não é voltar ao mesmo lugar, mas sim regressar à vida com uma consciência diferente daquela que tínhamos quando partimos. E, por vezes, essa pequena diferença muda tudo.
Por isso setembro não é apenas um regresso, uma “volta ao trabalho” ou “novo ano letivo”. Setembro fala-nos de ciclos, consciência, pausa, integração, verdade e de propósito, tudo o que define e compõe o Affectum.
Neste regresso das férias, que setembro seja um reencontro contigo. Com aquilo que sentes. Com o que verdadeiramente importa. Com a coragem de iniciares um novo ciclo de forma mais consciente. Nós estaremos aqui para caminhar contigo, sempre que fizer sentido. Bem-vindo de volta ao AFFECTUM.
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